quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A melhor amiga seguiu comigo



Desde a infância, Ana e Bia são amigas! Mesma rua, mesma escola, mesma sala de aula, mesmos colegas. Verdadeiras amigas/irmãs. A cumplicidade foi parte integrante de suas vidas e a reciprocidade do amor fez com ficassem juntas em todos os momentos.

Sempre dividiram seus segredos, angústias, paixonites adolescentes, conquistas e todas as outras situações cotidianas. As confidentes se conheciam pelo olhar. Palavras nem sempre eram necessárias para que se entendessem.

Não foi surpresa quando foram madrinhas de casamento uma da outra e nem tão pouco quando presentearam seus filhos como afilhados. A diferença de seis meses do nascimento de Matheus e Lucas.

Ana obteve o diagnóstico desíndrome de down já na gravidez e levou o choque inicial. Buscou informações, sua coragem e seu amor de mãe falaram muito mais alto que qualquer preconceito ou mitificação acerca da trissomia do cromossomo 21. Matheus nasceu sobre a proteção e aceitação dos pais e óbvio da madrinha.

Lucas foi diagnosticado comautismo quase aos dois anos. A busca por profissionais foi bastante difícil e a aceitação foi lenta. O medo daquele mundo novo que se apresentava se juntou com a insegurança referente ao futuro. Mas Ana, a madrinha, fez uma pesquisa apurada e sistemática sobre o TEA e deu uma verdadeira aula a Bia. As duas estavam cada dia mais unidas. Afinal, as duas eram mães de filhos especiais.

Difícil foi conviver com o preconceito da família e vizinhos. A falta de conhecimento e empatia fez com que fossem obrigadas a ouvir muitas coisas de cunho preconceituoso e arcaico. Tipo: “Matheus é mongoloide!” “Lucas tem “probleminha”, né?” “Que azar ter filho retardado!” ” Lucas é mudo, mas ouve, que esquisito.”

Elas estavam sempre dentro de casa e saiam somente para o estritamente necessário. Por exemplo: para as consultas médicas e terapias dos meninos. Momentos de desconforto e tristeza mediante aos olhares reprovadores que as cercavam. Até mesmo porque não eram mais convidadas para quase nada. Perceberam que os outros sentiam vergonha ou medo, ou sei lá o que.

As únicas vezes que passeavam era para visitar uma a outra. Aos poucos foram se fechando para a vida. O receio de um encontro desastroso fez com que o social fosse extinto. Claro que isso abalou fortemente as duas mães. Antes eram pessoas certas nas festas, iam ao Shopping, ao cinema, ao teatro, à praia, a todos os lugares que pudessem se divertir. Aquela luminosidade que as circundava se apagou perante ao outros.

Quando os filhos contavam cinco anos, chegaram à conclusão de que precisavam de ajuda. Eles estavam bem assistidos, mas elas estavam com o emocional em frangalhos. Conseguiram marcar psicólogos, respiraram fundo e contaram todas as mazelas que as afligiam. Necessitavam buscar bravura, encontrar um direcionamento, buscar contentamento.

Descobriram com a terapia que precisavam encarar o mundo de frente. Esconder os filhos da sociedade não diminuiria em absolutamente nada suas dores e mais, era praticamente uma autopunição. Mas punição a que? A quem? E Por quê? Perceberam também que a coragem não é o antônimo de medo. Embora haja temeridade, encare de frente os desafios.

Num ato de coragem e determinação, começaram, aos poucos, a sair. Resolveram que fariam os passeios sempre juntas, pois se sentiam mais fortes. Não foi fácil! A primeira crise de Lucas no mercado foi uma catástrofe. Olhares reprovadores e comentários maldosos feriram Bia profundamente. Era injusto chamá-lo de mal educado sem saber o que havia por trás daquele comportamento.

Depois de meses, elas se habituaram às situações e resolveram lutar pelo direito de ir e vir. Aprenderam como lidar com as circunstâncias e foram vencendo cada batalha. Escolheram escolas, colônia de férias, viajaram…

A amizade sobrepôs todos os desafios dados pela vida. Ana e Bia continuam unidas, porque o sentimento de amizade foi a força que impulsionou para que elas se tornassem fortalecidas e prosseguissem mais seguras. E ser feliz não é ter uma vida perfeita, mas sim vencer os desafios do dia a dia, ignorando pessoas preconceituosas e aproximando-se de entusiastas da causa. Encontrar contentamento nas coisas mais simples. Persistir na felicidade.

http://claudiateles.com.br/amigas-de-infancia/

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